De conteúdos espontâneos no Facebook a uma voz reconhecida nas redes sociais, Harley Patrícia transformou a sua experiência pessoal em propósito. Influenciadora digital, mãe atípica, oradora, conselheira matrimonial e fundadora do projecto “A Cura da Mulher Livre”, tem usado a sua voz para falar sobre maternidade, relacionamentos e, sobretudo, sobre as feridas emocionais que muitas mulheres carregam em silêncio.
Nesta conversa com a Vibe News, Harley fala sobre a transformação provocada pela maternidade de Kayla, os desafios da maternidade atípica, abandono emocional, liberdade, autenticidade nas redes sociais e a responsabilidade de ajudar outras mulheres no processo de cura.
1. De conteúdos espontâneos a uma carreira.
Harley, começaste a tua trajetória nas redes sociais de uma forma bastante espontânea, com conteúdos aleatórios no Facebook. Em que momento percebeste que aquilo que fazias poderia transformar-se numa carreira e numa plataforma de influência?
Harley:
Comecei de forma muito espontânea, partilhando conteúdos no Facebook, sem imaginar que aquilo poderia tornar-se uma carreira. Com o tempo, a visibilidade foi crescendo e percebi que, por detrás daqueles conteúdos, havia algo maior: pessoas que me ouviam, se identificavam comigo e eram impactadas pelo que eu partilhava.
Foi aí que compreendi que a minha presença nas redes sociais também trazia uma responsabilidade. Se eu tinha a capacidade de influenciar e gerar impacto, por que não transformar essa influência numa carreira, numa fonte de rendimento e numa plataforma com propósito?
Foi esse entendimento que mudou a forma como passei a olhar para a minha trajetória digital.
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2.Hoje és conhecida por falar sobre maternidade e por partilhares a tua experiência enquanto mãe atípica. O que a maternidade mudou em ti enquanto mulher e enquanto criadora de conteúdo?
Harley:
A maternidade já fazia parte da minha vida muito antes de eu ser mãe atípica. Eu já sabia o que era ser mãe, com todas as alegrias, preocupações e responsabilidades que isso traz. Mas, quando chegou a Kayla, a minha forma de viver e de entender a maternidade mudou.
Com ela, comecei a aprender coisas que eu nunca tinha imaginado. Tive de procurar respostas, aprender, lidar com medos e também desconstruir muitas ideias que eu tinha.
E acho que foi aí que a minha voz também mudou. A Kayla fez-me falar sobre maternidade de uma forma muito mais real. Passei a falar não só daquilo que vejo, mas daquilo que vivo.
Hoje, quando partilho a minha experiência, penso muito nas outras mães que estão a passar por situações parecidas e que, muitas vezes, só precisam de ouvir alguém dizer: “eu também vivo isso”.
A Kayla mudou a minha maternidade, mas também me deu uma voz que hoje sinto que tem um propósito. E sou muito grata por isso.
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3.Ser mãe atípica pode trazer desafios que nem sempre são compreendidos pela sociedade. Quais foram os maiores desafios que enfrentaste e que gostarias que as pessoas compreendessem melhor sobre essa realidade?
Harley:
Eu acho importante dizer que a maternidade atípica não é romântica. Eu vivo isso com a Kayla e sei que, para além do amor, existem medos, cansaço e muitas lutas que nem sempre são vistas.
Quando não temos rede de apoio, escolas preparadas, acesso à saúde e às terapias, tudo fica ainda mais difícil. E, muitas vezes, a condição financeira também pesa.
Por isso, eu prefiro falar da maternidade atípica com verdade. A Kayla mudou a minha forma de ver a maternidade e também me deu uma voz para falar por tantas famílias que ainda precisam de ser compreendidas.
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4.Grande parte do teu trabalho está ligada à cura emocional das mulheres. Na tua visão, quais são as feridas emocionais que mais têm afetado as mulheres atualmente?
Harley:
Na minha experiência, uma das maiores feridas que encontro nas mulheres é o abandono emocional. E há uma verdade que precisamos ter coragem de dizer: muitas vezes, a primeira pessoa que nos abandona não é um parceiro, é a própria família.
Há mulheres que cresceram com os pais presentes fisicamente, tiveram casa, comida e escola, mas faltaram-lhes escuta, acolhimento e segurança emocional. E isso também é negligência.
Na vida adulta, essas feridas podem aparecer na dificuldade de estabelecer limites, no medo de perder alguém ou na necessidade constante de aprovação.
Eu também precisei olhar para as minhas próprias feridas. E hoje acredito que cura emocional é reconhecer aquilo que nos faltou, cuidar do que ainda dói e decidir que a nossa história não vai continuar a determinar as nossas escolhas.
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5. Falas muito sobre liberdade e cura. Para ti, o que significa ser uma “mulher livre” nos dias de hoje?
Harley:
Para mim, liberdade foi algo que aprendi a construir dentro de mim. Hoje, ser uma mulher livre começa pela liberdade emocional: saber quem sou, o que quero e ter coragem de escolher o meu caminho, mesmo quando as minhas escolhas não agradam a toda gente.
Vivemos em sociedade, temos responsabilidades e regras, mas não podemos entregar aos outros o direito de decidir pela nossa felicidade.
Ser livre é dizer não sem culpa, mudar de caminho quando for preciso e, acima de tudo, ter coragem de viver uma vida que faça sentido para mim.
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6. As redes sociais muitas vezes mostram apenas o lado bonito da vida. Já sentiste pressão para manter uma determinada imagem perante o teu público, mesmo quando emocionalmente não estavas bem? Como lidaste com isso?
Harley:
Já senti alguma pressão, sim, mas nunca deixei que ela definisse a forma como me apresento nas redes sociais. Desde que comecei, entrei de uma forma muito natural. Eu mostrava a Harley que existia por trás das câmaras: a dona de casa, a mãe, a mulher, a família e também os dias que nem sempre eram perfeitos.
Nunca quis criar uma imagem de uma vida perfeita, porque eu não sou uma mulher perfeita e a minha vida também não é. Tenho problemas, tenho dias bons e dias menos bons, como qualquer pessoa.
Claro que existem momentos em que a exposição e as expectativas do público podem pesar, mas nesses momentos volto àquilo que sempre foi a minha essência: ser natural, autêntica e fiel a mim mesma.
Eu prefiro que as pessoas conheçam uma Harley verdadeira do que uma versão bonita de mim que não existe.
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7.Como oradora e mentora de mulheres no processo de cura, existe alguma experiência ou testemunho que tenha marcado profundamente a tua caminhada?
Harley:
Como oradora e mentora de mulheres no processo de cura, já tive contacto com muitas histórias que me marcaram. Mas há uma que ainda hoje me faz reflectir muito sobre o peso das feridas familiares não tratadas.
Uma mulher procurou-me depois de perceber que estava a viver um conflito muito delicado dentro da própria família. Ela tinha assumido a criação da filha da irmã, sem imaginar que existiam conflitos antigos entre as duas irmãs que estavam a influenciar aquela relação. A situação acabou por envolver a sobrinha, o marido e uma situação de abuso sexual que envolvia uma menor.
Foi uma história muito difícil de ouvir, não apenas pela gravidade do que aconteceu, mas por mostrar até onde podem chegar os conflitos familiares quando não são tratados. Fez-me perceber, mais uma vez, que feridas não cuidadas podem atravessar gerações e atingir pessoas que nem sequer participaram na origem daquele conflito.
Essa experiência marcou-me porque reforçou aquilo em que acredito: precisamos de falar sobre cura emocional, mas também precisamos de assumir responsabilidade pelas nossas feridas. Aquilo que não tratamos em nós pode acabar por afectar profundamente quem está à nossa volta.
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8. Uma mensagem para a mulher que precisa de se reencontrar
Se tivesses diante de ti uma mulher que está emocionalmente ferida, perdeu a autoestima e sente que já não sabe quem é, que mensagem Harley Patrícia lhe deixaria?
Harley:
Eu diria a essa mulher: pára de procurar nos outros aquilo que precisas reencontrar dentro de ti.
A tua dor explica muita coisa do que viveste, mas não pode continuar a decidir o teu futuro. Não tenhas vergonha de estar ferida, mas também não faças da tua ferida a tua identidade.
Procura ajuda, estabelece limites, aprende a dizer não e volta a ouvir a tua própria voz.
E lembra-te: ninguém pode fazer por ti a parte da tua cura que depende de ti. Escolhe-te. Porque recuperar a autoestima não é voltar a ser quem eras. É descobrir quem te tornaste depois de tudo o que viveste e decidir que essa mulher merece viver por inteiro.
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Conclusão
A história de Harley Patrícia mostra como experiências pessoais podem transformar-se em propósito. Da criação espontânea de conteúdos à construção de uma voz voltada para a maternidade e a cura emocional, a influenciadora encontrou nas próprias vivências uma forma de dialogar com outras mulheres.
Entre desafios, descobertas e aprendizados, Harley defende uma mensagem central: a cura começa quando deixamos de permitir que as nossas feridas determinem quem somos e as escolhas que fazemos.
E talvez seja justamente essa a essência da “Mulher Livre” que ela procura ajudar a despertar: uma mulher que reconhece a sua história, cuida das suas feridas, estabelece limites e, acima de tudo, volta a escolher-se.